As Garotas de Emma Cline

24 de setembro de 2017


Charles Manson, notório líder do grupo acusado de matar várias pessoas brutalmente na década de 60, entre elas Sharon Tate, já se tornou uma verdadeira lenda e referência, no que diz respeito aos mitos da psicopatia norte americana. Em seu livro de estreia, Emma Cline se inspira na chocante história do psicopata, e mostra até que ponto nós seres humanos somos influenciáveis e como o machismo está inserido em nossa sociedade.


Emma Cline e seu romance foram disputados a tapas no mercado editorial, não só internacionalmente. Seu livro chamou atenção por possuir características divergentes as que usualmente são abordadas em livros para adolescentes, fazendo com que As Garotas assumi-se de cara aspectos de romance para adultos, mesmo que não seja DE adultos. Sua escrita é deliciosamente ácida e apesar de simples não se torna cansativa em momento algum, o que é essencial para o tema tratado no livro. Por não ser fácil, já que trabalha diretamente com a mente humana, Emma toma todos os cuidados possíveis para não confundir o leitor sobre o proposto em sua obra. Provavelmente foi essa abordagem a responsável por entusiasmar editores de todo o mundo em ter o rostinho da autora estampados em suas contratações. Justificável!

Por mais simples que a linguagem utilizada pela escritora possa parecer, uma leitura mais lenta e comprometida é necessária. Autores como Stephen King reservam partes de sua obra exclusivamente para abusar da prolixidade (necessária). Aqui o mesmo é feito, porém fragmentado por todo o texto. O assunto do livro se escancara logo em suas primeiras 50 páginas, ou menos... Mas não é explícito, então cuidado! 

Evie é uma adolescente que implora por atenção. Sua mãe negligencia a filha, e seus amigos(a) são tão ou mais imaturos e confusos que ela. Diante deste cenário, ela conhece Suzanne. Os sentimentos explodem dentro da garota após ver uma figura a qual se identifica/admira. Essa admiração é contrária as que conhecemos por convencional, já que o grupo que desperta atenção de Evie usa roupas sujas, tem linguajar nada rebuscado e rouba para sobreviver.

Após aproximar-se da garota misteriosa, Evie é levada para a comunidade onde vive Suzanne e onde todos os seus problemas terão início. O líder do grupo, o carismático e impenetrável Russell envolve ela em seus jogos de sedução e manipulação, fazendo com que Evie esqueça sua antiga vida e comece a dedicar-se unicamente para a comunidade. Mas ela não sabe as coisas horrorosas que a aguardam...

As nuances contidas no livro são deliciosamente intrigantes. Durante a leitura absorvi diversas informações que foram contrárias as opiniões de várias outras pessoas que já leram o livro, sendo assim é possível dizer que existem dualidades na narrativa de Emma e estas podem, ou não, serem justificadas e enquadradas em apenas um tipo de interpretação. Tal como a sexualidade de nossa protagonista, Evie. A fixação dela por Suzanne é uma metáfora para as mudanças sentimentais da garota na adolescência. Por mais que isso possa ser entendido como descrição de desejo sexual, a autora quis passar uma mensagem maior: é a dependência em todos os seus aspectos.

Não só o título,  as descrições e as abordagens fazem desta obra predominantemente feminista. É um todo! Russell, que aqui representa a repugnante/fascinante figura de Manson, fica de escanteio. Ele está presente na narrativa por um determinado motivo, este bem justificado, mas o espaço de desenvolvimento é dado para as mulheres da trama, e como o machismo muda suas vidas. 

O posicionamento da protagonista em relação ao culto e sua vida fora dele, representa a confusão inerente a adolescência. Os desejos carnais, a líbido por coisas ilícitas e todos os outros aspectos que caracterizam essa difícil fase, estão presentes. Porém, o amadurecimento - contrário, claro - de Evie ganha forma ao longo das páginas. É bem triste acompanhar a destruição moral e física de nossa garota e a imprevisibilidade da narrativa da autora pega o leitor de jeito.

Conclui-se com a leitura da obra, que Emma Cline destacou-se com uma história, a primeira vista simples, devido ao seu talento imagético de narrar. Os clichês e firulas de escrita são totalmente abandonados pela autora, assim como qualquer ambientação de passado de qualquer personagem. Não é um livro fácil justamente por isso... Ele vai contra o que geralmente esperamos de livros do tipo: sensacional!

As Garotas não só é um romance brutal que disseca o crescimento de uma pessoa marginalizada por aqueles que deveriam apoiá-la, mas também uma nova visão sobre um dos fenômenos mais aterrorizantes que já assolaram os Estados Unidos.

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