Rita Lee - Uma Autobiografia

16 de novembro de 2017

a mulher de mil interpretações
Ícone de uma geração, Rita Lee conta em sua autobiografia muitos detalhes de sua vida antes ocultos para o grande público. Diz ter escrito seus grandes sucessos sob nítido efeito de drogas, assim como despensa eufemismos perante suas ações e sua tão comentada imagem. Uma mulher sem filtros!

Ícone de uma geração, Rita Lee conta em sua autobiografia muitos detalhes de sua vida antes ocultos para o grande público. Diz ter escrito seus grandes sucessos sob nítido efeito de drogas, assim como despensa eufemismos perante suas ações e sua tão comentada imagem. Uma mulher sem filtros!

Rita Lee Jones de Carvalho é talvez o maior nome da música popular brasileira. Ainda (felizmente) entre nós, a cantora não hesita ao falar das polêmicas que sempre tiveram intrínsecas a sua figura. Com um humor negro de dar inveja a qualquer humorista norte americano, a intérprete de “Ovelha Negra” oferece um deleite de pouco mais de 280 páginas em seu livro autobiográfico.

Com um início fofo, Rita nos conta um pouco – bem pouco – de sua infância, e ressalta: não curte reviver o passado “mais antigo”, como a mesma diz. É muito gostoso saber um pouco sobre as influências recebidas pela cantora logo na infância e o modo carinhoso e delicado como ela relembra os percursos recheados de nostalgia que viveu, é inspirador. Declarando não ser uma escritora e não ter qualquer compromisso de “qualidade” literária com seu livro, Lee até pensa que nos engana, mas mostra talento ao se preocupar em amarrar as pontas e instigar o leitor logo no início.

“O clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê.

É óbvio que ler a história de Rita Lee é também saber sobre o rock brasileiro em sua mais bela fase e o ponto mais alto deste livro fica por conta das fofocas de bastidores e dos detalhes antes não revelados sobre a época de ouro da musica brasileira. Tudo aqui é narrado de forma descontraída e descompromissada. O leitor que decidir se aventurar na curiosa e divertida história de Jones ficará espantado com detalhes íntimos de sua vida.

“É uma série de imagens que mudam ao se repetirem. É um tal de política destruindo a liberdade, de medicina destruindo a saúde, de jornalismo destruindo a informação, de advogados e policiais destruindo a justiça, de universidades destruindo o conhecimento, de religiões destruindo a espiritualidade. Confie em Deus, mas tranque o carro.”

Com a Internet, hoje o feminismo e outras causas tão necessárias para a mulher são cada vez mais discutidas e segmentadas. É fato que se deve muito a Rita Lee que, mesmo sem papas na língua, representou um gigante passo para a mulher ser enxergada como um talento único e não subordinado. Ela prega a igualdade durante todo o livro, mas nunca de uma maneira leve ou agradável aos conservadores... Estamos falando da escritora de “Amor e Sexo”

Rita Lee é sincera, adorável, sábia e uma verdadeira dama sem pudor! Ler sobre sua história não só é revigorante, mas necessário

Harvey Weinstein e a Eufemização da Violência

24 de outubro de 2017


Descrito como "predador" por suas vítimas, a maioria atrizes já consolidadas, o escândalo de abuso sexual de um dos maiores produtores do mundo revela a podridão instalada em uma indústria machista e preconceituosa.

A violência está instalada em todos os âmbitos sociais, sejam eles de classe econômica estruturalmente consolidada, ou não. Independente de raça, religião ou ideologias, a humanidade carrega as marcas de sua brutalidade há séculos. As mulheres são vítimas do machismo diariamente e seus níveis não são medidos, sendo assim sua gravidade é menosprezada na maioria das vezes.

Harvey Weinsten configura-se como um dos maiores produtores e proprietários de estúdios e empresas em Hollywood e em diversos países do mundo. Sua fortuna e poder são inigualáveis, consequentemente é uma figura querida e conhecida por todo o estrelato Hollywoodiano, sendo ele o chefe de praticamente todo este mundo de "glamour". No início de Agosto, com denúncias de abuso dirigidas ao produtor por diversas mulheres que já trabalharam com ele, os atos nojentos de Weinsten vieram à tona. Atualmente, ele se auto intitula doente e impossibilitado de responder por suas mais de TRINTA E SEIS acusações de abuso sexual.

Lupita Nyong'o comoveu o mundo com seu relato de abuso por parte de Weinsten
Mais de trinta atrizes, várias delas com nomes fortes na indústria, como: Gwyneth Paltrow, Angelia Jolie, Lupita Nyong'o... Vieram a público contar suas terríveis experiências com o produtor. Todas disseram terem sido coagidas por ele várias vezes e que isso não acontecia apenas com atrizes, famosas ou não. São inúmeras as acusações contra Harvey, sendo que trinta e seis são APENAS de atrizes que resolveram se manifestar sobre o caso. Ele possui má fama em Hollywood desde 1994, e boatos afirmam que foi responsável por destruir carreiras de diversas atrizes do 'show business' por não terem feito sua vontade. Essa era a maneira com que ele conseguia o silêncio de tantas vítimas. Usando seu poder, para então silenciá-las, assim como toda a mídia.

Contrário ao que muitas vezes imaginamos. O abuso não se esconde apenas nas camadas mais obscuras das áreas artísticas. Este ano, a ‘youtuber’ Carol Moreira foi visivelmente abusada verbalmente pelo ator Vin Diesel. Ele assediou-a sem nenhum constrangimento na frente das câmeras e de sua equipe. Obviamente, o caso teve uma repercussão gigantesca, mas infelizmente as críticas ressoaram mais em torno da vítima que do próprio agressor. São nesses - infelizes - acontecimentos rotineiros, é que o machismo do patriarcado é revelado em toda sua essência. Entende-se, então, que o preconceito não parte apenas dos agressores, mas sim de toda a sociedade que através de sua inércia consente com estes atos.

Depois da pressão da mídia sobre o NÃO pronunciamento de diversas pessoas próximas de Harvey – gente grande, como Ben Affleck, Tarantino – os mesmos incitados pela pressão se pronunciaram, ou mandaram seus agentes o fazer, sobre o caso. O curioso é que grande parte dizia já saber sobre as acusações que giravam em torno do produtor. Inclusive, alguns como Tarantino estavam cientes de pessoas em específico que sofriam nas mãos do agressor. Motivados pelo medo, incompreensão e, quem sabe, culpa, nenhum deles fez nada até tudo ser exposto ao grande público.

Woody Allen e Harvey Weinsten. Ambos acusados de abuso sexual
O caso Harvey Weinsten transparece uma Hollywood suja, entupida de falsa moralidade e esperança. Depois disso, como será a reação do grande público a premiações que, provavelmente, são compradas por este tipo de gente? Quer dizer... Todos nós sabemos o verdadeiro significado de eventos como o Oscar, mas com a coisa toda exposta, a descrença dá lugar ao desapontamento de milhares de fãs ao redor do Globo.

Assim como em década passadas, com grandes atrizes, como: Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn. A mulher continua sendo falsamente admirada e porcamente valorizada. Só se exterminará a banalização da violência, quando as pessoas que estiverem por trás disso pagarem por suas ações. Como resultado, fará com que a propagação da violência seja amenizada. Mas não se enganem... Dificilmente pessoas tão influentes pagam pelo que fazem e a mídia? Essa só se manifesta periodicamente.

Quer ler mais sobre o caso?

El País, sobre Lupita Nyong’o

Folha de São Paulo, sobre declaração de Woody Allen

O Globo, sobre declaração de Merly Streep

Lana Del Rey e seu Lust For Life

27 de setembro de 2017


Lana Del Rey e o que acontece com ela na indústria musical é um fenômeno interessante e que precisa ser estudado. Enquanto artistas como: Taylor Swift, Katy Perry, Beyonce, Rihanna... se renovam a cada disco para provar aos fãs algo que precisam para se manterem relevantes, Lana não. Sua música é tão boa e única que apenas o fato da própria existir já se mostra relevante. Talvez venha dai a obsessão dos paparazzis com a donzela, que é uma das celebridades mais clicadas do mundo. E acredite, uma das cantoras mais famosas de sua geração.

Born To Die é ousado, mas clichê. Ultraviolence é uma obra prima, que peca apenas em suas letras controversas. Honeymoon é um álbum que exalta o tédio de maneira esplendorosa. E o Lust for Life... 

Love

Faixa que não poderia estar alocada em outro lugar, que não na abertura do disco. Envolvente e original, evoca uma áurea que remete ao Born to Die. Sua letra é belíssima e uma verdadeira homenagem e agradecimento de Lana, para seus fãs. Acho-a uma música catártica que está no panteão das melhores canções da artista.

Lust for Life (feat.The Weeknd)

Que eles são o NÃO casal da música POP mais bonito que existe todos nós sabemos, mas como companheiros na música... hum... Fica devendo um pouco. Meu problema com LFL é seu refrão repetitivo e fastidioso. Além do que, se a música fosse um pouco mais curta e não exagerasse tanto nos momentos errados, talvez tivesse sido uma surpresa. 

13 Beaches

Lembra dos paparazzis do início do texto? Essa música é direcionada em grande parte aos mesmos. O vocal da Lana está limpo aqui e um pouco menos arrastado do que em outras faixas do registro. O instrumental (que é um problema no álbum) ousa e não decepciona o ouvinte. Prima de West Coast é mais uma daquelas faixas obrigatórias da Lana quando vamos indicar suas músicas para iniciantes em seu som. Uma das melhores, sem dúvida.

Cherry

S-A-F-A-D-A! Você não está ouvindo um álbum de Lana Del Rey se não houver pelo menos uma música assanhadinha, não é mesmo? As batidas pulsantes, o vocal afetado que mescla sensualidade com confusão... OMFG. Lembrei de Carmen impulsivamente e fiquei muito feliz quando fiz a comparação, já que a mesma é uma das melhores faixas do BTD. Assim como sua antecessora, Cherry é uma das melhores do disco.

White Mustang

Tem um início promissor e talvez seja a música mais descomprometida do álbum, porém nem tudo são rosas. Perdi a conta de quantas vezes Lana repete: "White mustang.
Your white mustang" durante a faixa. Felizmente tem curta duração, porque não sei o que sairia dali se mais 2/3 minutos fossem acrescentados.

Summer Bummer (feat. A$AP Rocky and Playboi Carti)

Por mais que a letra seja uma bobagem sem tamanho, e o feat não seja necessariamente fundamental, mesmo assim continua me cativando. Gosto do minimalismo da faixa e da pegada psicodélica que ela institui. Não faz nenhuma diferença no álbum, mas não acho que atrapalhe em um conjunto.

Groupie Love (feat. A$AP Rocky)

BEM melhor que Summer Bummer! Apesar de ter o mesmo defeito de LFL (refrão) a faixa me conquistou. Gostei bem mais do feat aqui, além da voz da Lana estar lindissíma. De todas as faixas, é a que Lana disse mais ter feito com "facilidade"... Impressionante!

In My Feelings

PARADISE EDITION, VOCÊ ESTÁ AI? Mesma vibe de Cherry. só que dessa vez multiplicada por quatro. Lembro que minha reação ao ouvir foi de pura perplexidade. GENTE É MUITO BOA O QUE Q ISSO!!! São essas pequenas coisas que só a Lana consegue fazer, que tornam o trabalho dela tão único. 

Coachella - Woodstock In My Mind

É nesta faixa que o maior problema do álbum fica nítido, e infelizmente diminui pontos na média final. Letra? Impecável! Lana coloca verdade na música, o que por si só já vale a audição, mas Coachella mais parece um registro feito por cantores amadores, daqueles de garagem. O instrumental é porco, pra não dizer outra coisa. Não entendi bem o desleixo com a faixa, e até com a produção do álbum em si. Faltou um pouco de ambição, tirando isso eu gosto da música.

God Bless America - And All Beautiful Women In It e When the World Was at War We Kept Dancing

Coloquei as duas juntas porque elas são um conjunto de algo igualitário. São nessas duas faixas que Lana mostra seu lado humanitário - flertou com isso em Coachella. Além de ser algo curioso que complementa o álbum, é também bastante corajoso; Poxa Lana... por que você é tão maravilhosa? São cativantes e cumprem com o que propõe.

Beautiful People, Beautiful Problems (feat. Stevie Nicks)

E chegamos a melhor faixa do álbum! São tantas coisas que a tornam uma faixa tão especial; Estou com dificuldade de enumerar, confesso. Primeiramente: Stevie Nicks que dá um verdadeiro show e mostra porque tem título de lenda. Os vocais das duas unidos são um deleite aos ouvidos. Isto, aliado ao incrível significado da música, que prega a empatia e a reflexão, a tornam talvez um dos melhores trabalhos de Lana desde Brooklyn Baby (Ultraviolence). Tão boa que chega dói <3

Tomorrow Never Came (feat. Sean Lennon)

Antes do lançamento oficial, já era esperada ansiosamente. O legal da faixa, é como ela brinca com a fatídica coincidência de uma fã dos Beatles, estar cantando sobre eles, ao lado do filho de um de seus membros. Em um dos trechos mais belos do Lust for Life, ela diz: "Isn't life crazy? I said. Now that I'm singing with Sean". Impossível não cair de amores pela música. Vocais impecáveis, instrumental conduzido por cordas... Obra prima!

Heroin

Polêmica! Em outros álbuns já ouvimos o flerte de Del Rey com as drogas, mas nesta faixa isso fica nítido. O defeito dela são os 3 primeiros minutos que não entregam nada de surpreendente ou que se destaque em meio as outras faixas. Porém, a situação muda depois do minuto três e o resultado não poderia ter sido melhor. Enigmática, envolvente e com sonoridade alheia aos trabalhos anteriores. 

Change

Passa um pouco batido dentro do conjunto do Lust for Life. É uma balada bonita, com um refrão que gruda na cabeça e ganha pontos ao longo da faixa. Mas é só! Não acho-a ruim de maneira alguma, contudo não é nenhum destaque do disco.

Get Free

Um digno encerramento é o que Lana sempre ofereceu, e aqui não foi diferente. Também uma das minhas faixas favoritas, Get Free é um pouco mais animada, contando com vocais de fundo e uma produção mais lírica. O refrão? Fantástico! Foi a 3° que mais ouvi até agora, de acordo com o Last.fm.

Esperava o melhor de Lana del Rey e seu Lust for Life, já que estamos falando de uma futura lenda da música. Porém, o que ela apresentou aqui está acima de qualquer expectativa que eu cheguei a ter. O 4° álbum de estúdio, é também o melhor de sua carreira! Com arranjos especiais, uma voz de dar inveja e letras inspiradoras, é que Mrs. Del Rey constrói sua obra prima, até agora. Lorde, Lana e Kendrik: vocês são a trindade da música, esse ano. Alguma dúvida de que Lana não precisa provar mais nada para ninguém?
















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